Reli o primeiro texto que escrevi, aqui, dizendo que morreria tranquila, sem arrependimentos.
Onze anos depois, dou três tapas na minha cara, porque a maturidade me trouxe arrependimentos, especialmente sobre tudo aquilo que não vivi. Sem contar que, aquela menina ingênua de 21 anos, que achava que poderia viver a sua intensidade, a sua chama, a todo o tempo e em todos os lugares, teve que, por muitas vezes, se fazer pequena para caber em alguns espaços. Já não brinca mais de eternidade - pelo contrário: tem pressa em viver.
O que me consola é que ela ainda está aqui e, diariamente, não me lembro dos arrependimentos dessa última década, mas trago aquela garota com toda a impetuosidade possível, até nos dias mais monótonos. Continuo com a cara lavada, com a exceção dos cremes para 30+, claro. E o coração... ah, esse tem uns remendos, umas partes faltantes e já não bate, espanca.
Ainda não colhi muitos dos "meus verdes ainda não maduros". Outros, colhi e os replantei. Ainda outros tantos, sequer brotaram. Os "sonhos de vida" já não são tão alegóricos, muitos se tornaram meras vontades. E essas vontades, Senhor!, são cada vez mais incontáveis.
Aprendi a não me levar tão a sério. Já fui muito dura comigo mesma. Ainda não identifico quando estou repetindo este padrão, mas a cabeça no travesseiro já é mais realista e paro de me chicotear. Chicotes, inclusive, só aceito a la "50 Tons". Aprendi a rir mais e a xingar mais - especialmente, este último, com toda certeza. Aprendi a ser mais honesta comigo, sobre a minha luz e a minha sombra. Aprendi a viver as dores e os doces sabores da vida, todos tão inevitáveis, efêmeros e pungentes, ao mesmo tempo. Por eles que meu coração passou a espancar.
Odeio ser saudosista, mas já sou. Ouvir música se tornou terapia para rir, chorar, ressuscitar os cadáveres de borboletas no estômago, cantar gritando e, claro, dan-çar. Escuto pagode dos anos 90 e lembro como sofria por amor aos 8 anos de idade, pela paixão pelo coleguinha de classe. O pior é o susto que sempre tomo quando ainda reconheço aquela criança nesta tiazinha que vos fala. E caio na gargalhada quando isso acontece.
Ainda sou 0,008 ou 80 zilhões. Já aprendi que o caminho do meio será a minha busca por toda a vida, ainda que eu tenha medo de encontrá-lo e mudar minha essência. Mas aprendi a ser prática. Não quero mais perder tempo com nada que não me some. Já não tenho paciência para entrelinhas. Aliás, a paciência acabou lá pelos 25. Acho que antes, até.
Renato me faz imenso sentido, mais do que nunca, dizendo sobre as chances desperdiçadas quando se quer provar para todo mundo que não precisa provar nada para ninguém. E ainda choro quando ouço "Andrea Doria", igualzinho como aquela garota de 21 chorava. Esta música me é um prelúdio e um epílogo, ao mesmo tempo.
Analisando aquele fim de mundo pessoal, sabe o que ficou? Eu, pura e simplesmente. E sei que continuarei aqui, mesmo que a quantidade de creme anti-aging aumente. E, se o mundo acabar amanhã (o que já não parece tão distante como antes), minha praticidade diz que não farei nada. Certamente, também não terei feito a cama e deixarei outras dezenas de coisas inacabadas. Mas sei que terei amado até aqui. Isto, por hoje, basta. Vamos ver o que bastará aos 40.
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