domingo, 19 de março de 2023

Triplex

Não ter um canal de comunicação com muita clareza e intimidade, sem medos bobos e julgamentos, é algo que me deixa muito insegura. Eu tenho uma mania horrorosa em pensar nas várias possibilidades do que se quis dizer com o que se disse. Preciso de clareza, obviedade. Nunca tive paciência para indiretas, entrelinhas, subentendimentos. Hoje, nem paciência, nem tempo.

E aí, vem outra questão: não se abre para o diálogo porque a outra pessoa é desse jeito, não está acostumada, tem seus problemas em confiar, seu passado... ou eu não estou fazendo a minha parte em dar segurança o suficiente? Percebam: eu penso demais, mas porque me importo.

Me é muito valioso ter intimidade, saber onde se pisa, não ser nada além do que se é, com sinceridade e transparência e gostar disso. Relações humanas já são tão complexas... Por que não apenas “ser”? Tem que ser gostoso. Tem que ser “casa”.

Há uns dois meses, eu tive uma conversa muito maravilhosa com um amigo de longa data. Nós não temos muito em comum na educação, nos lugares pelos quais crescemos e vivemos e sequer convivemos. Mas somos muito iguais nessa coisa do “apaixonar-se”. Os dois com mania de relacionamento sério-e-longo-e-para-toda-a-vida. Dois amantes das companhias leais, dois entusiastas que topam tudo, dois velhos-jovens. Dois apaixonados por quem carregam ao lado. Conforme ele me conta coisas da vida, eu só vou pensando: “não acredito que seja tão igual” ou “é assim que é me ouvir?”, porque é tudo tão exato que chega a assustar.

Pois bem. Conversamos sobre como, mais do que precisamos receber, nós precisamos dar. Dengo, beijinhos, toques, abraços, sorrisos e a tal coisa de se fazer “casa” do outro. Eu, gata escaldada, comentei sobre meu medo em “perder meu tempo” fazendo essas coisas, porque me são muito íntimas e só ofereço quando sinto segurança em poder me entregar, sabendo qual que é a do outro e que não serei vista como “emocionada”. A resposta dele? “É, Dona Carla, está perdendo a oportunidade de viver muita coisa boa, então!”. Olhem a audácia desse querido.

Eu dei uma deliciosa gargalhada e o xinguei, carinhosamente. Ele guarda toda razão. Racionalizo demais o que, talvez, eu tenha que deixar fluir. Independente dos medos, das dúvidas, da comunicação prejudicada.

Um pequeno triplex que tenho confrontado, ultimamente.

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